Um Clube e UM Circuito Automóvel em Gaia


Nos anos 30 do Séc XX, Miramar foi a primeira localidade Gaiense a receber provas de desporto Motorizado, mas foi com a criação, em 1965, do segundo traçado permanente do país, a Pista de S. Caetano em Vilar do Paraíso, graças ao empenho de um grupo de jovens amantes dessa nova disciplina, o Kart, que Gaia entrou no ‘circuito’ da competição motorizada a nível Nacional.

Outras Freguesias de Gaia receberam a realização de diversas provas, de cariz Regional e Nacional, das duas às quatro rodas mas, é com a vinda da Red Bull Air race que o desporto motorizado parece estar a “renascer” no Concelho, como se tem verificado através da realização de provas de Karting, Trial em Motos e dos automóveis Clássicos.

Concelho que tem créditos firmados na competição motorizada, tal como se pode comprovar através de mais de uma dezena de títulos alcançados por pilotos locais em campeonatos Nacionais e Internacionais, em modalidades tão distintas como o Autocross, Ralicross, Ralis e Velocidade, só na vertente desporto Automóvel.

O «passado» traz-nos ao presente, no qual o convidado deste…”À Conversa com…” é o Vereador do Município de Gaia para o Desporto, Turismo, Protecção Civil e Actividades Económicas, Dr. Mário Fontemanha, com quem vamos falar sobre o “futuro”.


“À Conversa com…Vereador Mário Fontemanha”

JO.. É conhecido o seu gosto pessoal pelo desporto Motorizado e, para início desta nossa conversa, gostava de saber, até que ponto a vinda do Red Bull Air Race foi a “mola” impulsionadora do ressurgimento do desporto Motorizado em Vila Nova de Gaia?

MF..Desde criança que sou um amante do desporto motorizado e, desde que me conheço, nunca perdi uma única edição do Rali TAP/Vinho do Porto,…sabia os nomes de todos os grandes pilotos Nacionais e Internacionais, dos ralis à Fórmula 1…mas, sendo natural de Águeda, sempre tive um gosto particular pelo Motocross e era amigo do Manuel Massadas, ‘O’ grande Campeão dessa modalidade com enorme expressão no Concelho, no qual todos os anos se realiza uma prova integrada no campeonato Mundial da especialidade.
No entanto, apesar desse gosto enorme, nunca me senti vocacionado a competir, e, entretanto, a vida deu outras voltas. Primeiro foram os estudos superiores, depois disso veio a Advocacia e o consequente desenrolar da minha vida. Durante anos fui Administrador da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, fui Cônsul da Lituânia e, actualmente, sou Vereador desta Câmara.
É claro que tudo isso nos tira tempo de lazer, não me permitindo seguir mais de perto este desporto. No entanto, nos últimos anos, um grupo de amigos tem-me convidado a ter uma presença mais activa, o que me levou a participar nas 12Horas de Kart de Miramar…


JO…O cidadão comum do nosso Concelho, inclusive a maioria dos que seguem o desporto motorizado, não têm conhecimento que o Vereador já participou em algumas provas, quer de Kart, quer na qualidade de ‘navegador’ em diversos ralis, o que lhe permite ter uma outra noção daquilo que é este desporto.

MF..Gosto fundamentalmente dessa particularidade. Não sou ‘craque’ na condução mas, quando me convidam a participar, sinto um gozo fantástico. Para além do Kart, esta (Rali da Lomba, N.D.R.), foi a segunda vez que me sentei ao lado de um grande piloto Gaiense. É um homem que tem umas mãos fantásticas para o volante…

JO..Não teve medo de cair ao buraco?

MF..Não, não tive medo mas, deu-me aquele arrepio ao fundo da espinha! Cair por uma ribanceira de cinco metros e depois, com toda a maestria conseguir contornar o problema e sair de lá, por um trilho de cabras e regressar à estrada, foi simplesmente inolvidável. Já tenho algumas promessas para voltar a repetir a experiência, sem voltar a cair ao buraco, como é óbvio, mas mantendo-nos sempre dentro da estrada e, uma das possibilidades é a de estar presente na próxima edição das 24Horas TT Vila de Fronteira com a equipa Megapeças.


JO.. Essa paixão pessoal poderá possibilitar que Gaia, para além destas breves demonstrações de Kart, as 24Horas de Gaia, as 12 Horas de Miramar, provas do Nacional de Motos-Trial, automóveis Clássicos em Arcozelo e Pedroso, possa vir a ter, num futuro próximo, o regresso de um desporto, que tantas alegrias deu aos milhares de adeptos que temos no Concelho ao longo da década de 60, 70 e 80. Até que ponto será possível trazer, mais assiduamente este desporto até nós?

MF.. Pessoalmente penso que sim e vou dizer como me tenho empenhado pessoalmente para que isso seja possível. Começo por dizer que vivemos, de facto, num período de grande constrangimento a nível económico, Europeu e Mundial, no qual Portugal não foge à regra, vivendo um período extremamente difícil e, é nestes momentos que, aquilo que por vezes consideramos de supérfulo, tem tendência a ficar para trás.

Mas também é, principalmente nestes momentos, que devemos ser mais imaginativos. Tenho falado com várias pessoas de Vila Nova de Gaia, muito ligados ao desporto Automóvel, nomeadamente consigo (Joaquim Oliveira), e nós não podemos fazer as coisas desgarradamente, de modo casuístico, senão a tendência é de que as mesmas não perdurem no tempo. Por isso, das duas uma, ou é o erário público que normalmente suporta essas manifestações, ou então, temos que ter algo que nos leve a que as coisas sejam feitas de uma forma sustentada e continuada no tempo.         

Eu falei com algumas pessoas, as quais entendo puderem levar este projecto para a frente, e, acreditamos que tudo se deverá iniciar pela criação do Automóvel Clube de Gaia. 

“AUTOMÓVEL CLUBE de GAIA”

Esta é uma ideia que vem sendo amadurecida, mas este Clube não se irá restringir apenas ao utilizador do veículo automóvel, pois o desporto Motorizado tem que estar incluído!
Desta forma conseguiríamos ter um processo continuado e sustentado da manifestação desportiva, como organismo capaz de gerir o seu próprio calendário, e que, o próprio Clube seja uma entidade auto-sustentável, ponto fundamental, porque não podemos andar constantemente à procura dos apoios públicos para que se consigam realizar os eventos.

As Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia deverão ser parceiros activos no fenómeno desportivo, tanto no caso do desporto Motorizado, como em qualquer outra modalidade, mas com o menor recurso possível às suas próprias verbas.

JO..O Município de Gaia tem investido bastante na área desportiva, mas o desporto Motorizado tem ficado sempre de fora…

MF..Sim. É preciso notar que a Câmara de Gaia, de há doze anos a esta parte, investiu 111 milhões de euros em infra-estruturas desportivas! Na realidade, o desporto Motorizado tem ficado de fora porque há muito menos gente a praticar este tipo de desporto. No entanto, se não for dado o ‘imput’ e o impulso necessário, o desporto Motorizado também nunca terá, em Gaia, a projecção que existe noutras modalidades.

Eu quero, e é um dos meus objectivos, guindar o desporto Motorizado em Gaia para um patamar que se destaque a nível Nacional.


“Circuito Automóvel em Gaia”

JO..Mas para isso, seria necessário criar no Concelho uma infra-estrutura de base, na qual se pudessem praticar desportos motorizados, um pouco à imagem do projecto “GAYA Motor Center”, que eu mesmo realizei e apresentei à V/consideração…

MF..Já lá vamos, pois essa é também a minha ideia, mas é demasiado cara para o erário público. Por esse motivo é que temos que começar por uma situação organizada e auto sustentável.

Se nós temos um Clube vocacionado para o Motor, também temos pessoas que necessitam de pneus, de oficina, de aquisição de equipamentos, etc., pelo que, se deveria cativar o cidadão comum, principalmente os que não pratiquem desporto motorizado, a pertencerem a este Clube.

E, com a criação desse “espaço”, poderíamos criar um centro onde as firmas que quisessem, principalmente as que estão implantadas em certas áreas, e que enfrentam problemas ambientais, poderiam montar as suas oficinas, onde poderia nascer comércio e outro tipo de indústria, um local ao qual todas as pessoas se pudessem deslocar e aí encontrar onde reparar as suas viaturas, adquirir consumíveis para as mesmas, e, outro tipo de serviços ligados ao veículo motorizado, como comprar um capacete, um fato para andar de moto, comprar pneus, etc., com a vantagem dessas mesmas firmas concederem desconto aos associados do Clube Automóvel. 

JO..Apesar da dimensão, seria como que criar um ‘mini’ Automóvel Clube de Portugal, o qual, durante muitos anos foi também responsável pela competição motorizada a nível Nacional.

MF..Sem nos querermos equiparar de alguma forma ao ACP, até porque é o maior Clube a nível nacional, de que sou sócio há muitos anos, a quem aproveito publicamente para felicitar a vitalidade que mantém, a ideia principal a incentivar, seria a de encontrar nas empresas de Vila Nova de Gaia, principalmente as ligadas ao ramo automóvel, a formarem também elas parte deste Clube, de modo a que o sócio usufrua de descontos nas áreas de que necessitar. E com isto, angariar fundos próprios para que se consiga fazer uma coisa, a qual só se consegue com algum sonho e alguma ambição. Se nós quiséssemos fazer uma prova de Trial, de TT, uma escola de pilotagem, deveria haver um espaço próprio para que tudo isto pudesse funcionar.


JO..Seria o criar da tal infra-estrutura para reunir á sua volta tudo o que tivesse a ver com o «motor», na qual o Clube teria um espaço físico, com a componente desporto Motorizado também ali implantada, com um traçado multi-usos permanente, e, quem sabe, onde se pudesse fundar um Museu dedicado ao Desporto Motorizado, etc….

MF..Sim, é isso que tornava, no fundo, que este projecto fosse sustentável.
Por esse motivo é que tenho pedido ao grupo de pessoas com quem me tenho reunido, que me apresentem um modelo económico de sustentabilidade deste Clube, deste projecto, porque é possível efectuar um estudo económico, para que possamos começar a pensar e desta forma ajudar a sociedade civil, e, este seria o papel da Câmara, para atingir esse mesmo objectivo. Por um lado uma sustentabilidade com o maior número de sócios possível, por outro lado a criação do maior número de serviços possível a favor dos mesmos associados, de modo a tornar possível a criação do tal Clube.

Depois, criar uma secção específica dentro do Clube para a manifestação desportiva, ou seja, para a realização de provas de desporto motorizado, fossem elas de Trial em motos ou carros, de Todo-o-Terreno, de Velocidade em motos ou em automóveis, de Kart, ou seja, toda uma panóplia de provas que nós gostaríamos de calendarizar, regularmente, de modo a que Vila Nova de Gaia fizesse parte do Calendário Nacional da Competição Motorizada.

Mas tudo isso tem que ser o próprio Clube a conseguir, a obter os apoios necessários, porque as Câmaras e as Juntas de Freguesia não podem continuar a ser vistas unicamente como parceiros económicos, até porque, o erário público tem cada vez menos, ou até já não tem, verbas para gastar nestas áreas.

JO..É preciso que exista esta mudança de atitude. Os organismos públicos devem continuar a existir como parceiros, cedendo zonas ou espaços para que aí se possam realizar as manifestações desportivas, sem que sejam financiadores desses eventos.

MF..Para isso, tal como o Joaquim sabe, tão bem ou melhor do que eu, é preciso que hajam pessoas activas, imaginativas e proactivas à frente destas estruturas. Se conseguirmos conjugar todos estes factores, tudo isto é possível e sabe porquê?

Porque estamos num Concelho que tem massa crítica, que tem feito um trabalho notável no desenvolvimento do Município ao longo destes doze anos, e, hoje, é o segundo ou terceiro mais populoso do País. E isto só se consegue fazer num Concelho onde haja população, onde haja pessoas, e, onde houver espaço e nós felizmente temos as duas componentes, e, tão ou mais importante, pessoas com vitalidade para fazer avançar este tipo de projectos.

“Dar vida aos recintos existentes”

Dir-lhe-ei também que não me sai da ideia aquela pista que existe no Estádio do Canelas, na qual gostaria de ver realizada algum tipo de competição, seja com uma prova de 12 ou 24 Horas de Kart, tipo Daytona, ou uma qualquer outra manifestação de desporto motorizado. Se tivéssemos a possibilidade de, amanhã, fazer lá qualquer coisa dentro do espírito para que ela foi construída, pois é uma pista de velocidade, acho que seria um sucesso. Tenho, inclusive, falado com grupos de Ciclismo de Gaia, para ver da possibilidade de organizarem lá alguns eventos velocipédicos e, estou certo de que, mais dia menos dia, vamos lá ter provas interessantes.

JO..Tal como já anteriormente conversámos, a opção Canelas e a opção S. Caetano, foram duas das hipóteses que analisei antes de me decidir por Pedroso para a organização do 1ºEncontro de Clássicos em 2010. Pessoalmente, fiquei positivamente impressionado com o que vi em Canelas e desejoso de lá organizar um evento, porque existe muito potencial no local. Se tivéssemos o Rali de Gaia, seria um local excelente para realizar uma Super-Especial. Mas, S.Caetano também pode continuar a receber outros eventos. Tivemos lá o encontro Topos&Clássicos, e os encontros do Clube Mini de Portugal, e do Clube Ovalo Azul (Ford), mas estou certo que seria possível lá realizar vários outros eventos.

MF..Gostava também falar desse sítio mítico que é o Parque de S.Caetano.
Na minha opinião, neste momento o parque de S.Caetano tem um grande handicap no que toca à realização de eventos de Desporto Motorizado, que é o problema da proximidade das habitações e do eventual ruído que possa existir. Mas, gostaria imenso de sensibilizar todos os amantes e, nomeadamente este Clube Automóvel Gaiense, que vai aparecer em 2011, em conjunto com o Presidente da Junta de Vilar do Paraíso, pessoa extraordináriamente activa e amante da sua terra, para que se fizesse reviver esse espaço.


JO..Outro local bastante activo, tem sido Crestuma. A Vila tem recebido provas pontuáveis para o Campeonato Nacional de Trial (Motos), mas tem potencialidade para receber outros eventos.

MF..Isso é um facto, e gostaria aqui de enaltecer todo o apoio que o Presidente da Junta e a sua equipa têm prestado à organização dessas provas de Trial, as quais tiveram um enorme êxito desportivo e de público.
Além disso, gostaria também de pensar numa Rampa de Crestuma. Infelizmente não há espaço para realizar uma prova a contar para o Campeonato Nacional, para a qual é necessária uma extensão mínima que ali não temos mas, acho que o local tem uma beleza extraordinária para albergar uma prova dessa natureza. O Presidente da Junta é, também ele, uma pessoa extremamente activa e um grande dinamizador da sua terra, pelo que, estou certo de que vamos encontrar uma via que torne possível a realização duma prova deste tipo nesta Vila Gaiense.

“Gaia é um Concelho de Campeões”

JO..Qualquer dia teremos também um Rali em Vila Nova de Gaia…

MF..E porque não?

Aquele rali da Lomba-Gondomar, no qual participei, foi uma prova muito simples de fazer. Tive oportunidade de falar com a organização, o Gondomar Automóvel Sport, e, foi uma prova extremamente barata de colocar na estrada, sem grandes complicações, e, fez-se uma magnífica manifestação desportiva que, estou certo, os habitantes daquela zona tão cedo não esquecerão, e, porque não organizar um Rali em Vila Nova de Gaia?


JO..Vamos dar por terminada esta nossa, primeira, Conversa com…Mário Fontemanha, e, face a tão importantes temas revelados pelo Vereador Municipal do Desporto, estará Vila Nova de Gaia definitivamente na Rota do Desporto Motorizado?

MF..Gaia é um Concelho de Campeões, sejam eles de Automobilismo, Atletismo, Basquetebol, Ciclismo, Voleibol, Andebol, Futebol ou Remo, É um Concelho de Campeões!
Talvez pelo facto de estar na vanguarda do desenvolvimento Nacional, e esta é minha convicção, é um Concelho de Campeões.

Vamos tentar colocar Vila Nova de Gaia no mapa do desporto Motorizado Nacional, sem procurar ou sequer competir com ninguém, seja com o Autódromo do Estoril, o Autódromo do Algarve, Braga ou com o Circuito da Boavista.
Não é essa a filosofia que queremos para estes projectos, o que pretendemos é realizar algo nosso, de Vila Nova de Gaia, que perdure no tempo, de forma sustentada e economicamente independente! 

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Actualizado em (Domingo, 25 Setembro 2011 15:07)

 
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